5.5.14

gosto de abrir os livros pelo meio e lê-los de trás para a frente, gosto da luz das estrelas, gosto da frase quando o coração da gente tem uma estrela cadente morre para nascer depois, gosto das espigas de Maio e de pendurá-las bem alto na cozinha envoltas em fita de seda verde, gosto que a esperança se renove em cada início de dia, gosto da afirmação it's ok not to be ok, gosto de levantar as fotografias caídas pela aragem e de recolocá-las nas prateleiras da estante e de pensar que é a primeira vez que as encosto aos livros, gosto de surpresas e de nunca saber o final dos livros e dos filmes...

1 comentário:

Castro L. disse...

Ajoujado pelo clima de hoje de falso estio, escolho a estrela candente. Ou, que ali no sobrado jaz, a espiga de milho errante dos celíacos confrades que leem os livros às arrecuas, sem rumo certo, em busca de uma palavra, de uma ideia, de um deleite qualquer ou de redenção, enfim, a ver se ainda amanham um programa para a vida. Ou então ornamento antes as paredes da cozinha com livros, que a alguns destripo e retiro as lombadas para separadores no álbum amarelecido de fotografias de antanho que deixarei de espólio aos que ficarem.

Depois, com a esperança e o ânimo em rodopios de tontura, talvez rasgue tudo, num rompante de loucura destrutiva, ardendo as fotografias, e sentindo um queimor que talvez me reste nas mãos até ao fim dos dias, impedindo-me de ai em diante que durma tranquilamente. E, assim, por este desassossego, retiro das estantes os livros que sobram e atiro-os pela janela abaixo até ao passeio, como se me defenestrasse neles e com eles. Espero, entretanto, que outros celíacos optem pelo arroz. As espigas serão outras, as cores dos móveis e armários avivar-se-ão, certamente, as paredes serão como seda branca corpo dela e o chão veludo, que a casa, agora, como as mãos, será vazia, leve, retemperada, renovada.

Embrulho-me no lençol e guino até à varanda, para sentir a viração maluca que teima em assomar nas noites de maio, enquanto miro o furor das luzes anónimas dos automóveis, motorizadas e autocarros que se agitam lá fora como num carreiro de formigas. Encosto-me, nestes atavios à laia de sudário, à ombreira desta portada, segurando um leitor de livros eletrónicos preto com a bateria a 17% de carga, e, enquanto ratifico a seleção da minha estrela - mais cadente agora que cálida -, arremesso o aparelho para o fim da rua, onde provavelmente se estilhará ou ficará de tal maneira desarranjado que nunca saberei dos inúmeros finais dos livros que milagrosamente entraram nele, nem tampouco do destino da coisa, porque me fecharei de seguida na sala a rever Montgomery Cliff em ‘From here to eternity’, de que nunca soube nem saberei o fim, porque adormeço irrevogavelmente antes, pendurado num sonho sobre o tempo...

Apesar de mortas há uma infinidade, estrelas bastardas hão de reluzir no céu leste do globo, ao passo que o sol malhará no capim de Angola uma tórrida cor de labareda que de imediato se desbotará para se envolver num zumbido com a terra. Possivelmente, acordarei com esses ecos. É sempre outro dia quando isto acontece.

Hipótese Barrós: os livros ardem mal. Hipótese Safka: Se vivesse dentro de um bom livro, nunca teria de sair e para ver o que fizeram da minha canção.

28/05/2014