21.7.08

a contra-luz uma bicicleta junto ao mar

Este artefacto, a bicicleta a contra-luz junto ao mar, lança-nos no indefinível do tempo que passa,

As árvores falavam. Não escutavas, rias-te. Mas falavam, diziam coisas. Seguia-te, desaparecias, cruzavas-me a corrida lenta. Se eu escutava as árvores!

do tempo que se suspende, no indefinível da subtil operação de exumar o tempo, os seus voláteis princípios, o regresso à terra.

O desenho na caruma, o zig-zag da pedalada e eu parada. A aragem na folhagem, dizias. Impaciência, e o guiador preso ao ramo frágil. Mesmo assim eu escutava as árvores.

E assim, o que produz esta bicicleta, esta singularidade de um fim de tarde, este esquema de sombras equilibrado num poste junto ao mar?

Gemia o ramo, soltei-o. Em velocidade acrescida, pensavas puxar-me. E eu parada, e o ramo solto. Escutava as árvores e elas gritavam. O som quebrado, metálico, na curva. Paraste.
E as árvores fecharam-se completamente em si mesmas e nunca mais falaram. *

Traduz a comovedora articulação entre fuga e permanência, ausência móvel, e presença parada, de que ela é a mágica, improvável concretização.







em itálico: excertos de poema de Luís Quintais
* As Crónicas de Narnia - o príncipe Caspian
fotografia de Anke

4 comentários:

clarinda disse...

Três vozes aqui, uma filosófica, outra sensitiva, outra infantil. Gosto destes diálogos.
Já não me lembro de andar de bicicleta, acho que nem sei mais.
Beijinhos

moriana disse...

Clarinda, dizem que é coisa que não mais se esquece, andar de bicicleta.
As crónicas de Narnia..tanto que os adultos aprendem ao lê-las (vê-las)...Encantamento, também. O resto é o que se saber.
bjs.

FB disse...

Quem conhece a sua ignorância revela a mais profunda sapiência. Quem ignora a sua ignorância vive na mais profunda ilusão.

moriana disse...

olá, bem vindo(a), FB.
a tua citação: Lao-Tsé.
:)
volta sempre.